As histórias que compõem este livro, como quase sempre acontece na inventiva escrita de Clarice Lispector, partem de circunstâncias comuns e desembocam no plano do extraordinário. Falam de pão com manteiga, beijos de mãe e primeiros beijos, um livro aberto, um macaco de saia curta, Deus nas acácias. Falam de desejo, inveja, perdão, esperança, amor e descoberta. A protagonista da história que dá título à coletânea vive consumida pela cobiça do tesouro de outra rapariga: os livros a que ela, filha de um livreiro, tem acesso. Mote para uma narrativa de desejo intenso a partir do imaginário da juventude, este conto dá o tom para todo o livro, publicado pela primeira vez em 1971. Da apologia da leitura à tristeza do Carnaval ou às audácias de uma galinha, passando, sempre, pela interrogação do que define o humano, estas são histórias íntimas, de alcance literário intemporal. « Em Clarice o género não conta, porque é ela e só ela no centro do que escreve, tudo o que escreve emana dela, não cita, não imita, não parafraseia, não programa, não reproduz o episódio, nem sequer ela narra. Vai puxando frase atrás de frase, construindo um pensamento literário.» Luísa Costa Gomes, nota de apresentação « Não importa quão ínfimo ou grandioso seja o assunto — o amor de uma menina pela sua galinha de estimação, o primeiro beijo entre colegas de turma ou os devaneios de uma dona de casa insatisfeita —, tudo se torna ampliado nas mãos de Clarice Lispector.» The Times « Lispector foi comparada a Woolf, Joyce, Proust, Sartre […]. Quanto mais singular um escritor, mais a crítica procura comparações. Mas, se a lermos o bastante, percebemos que Lispector escapou destas armadilhas: é e não é feminista, pós-modernista, absurdista, mística. Em vez de procurar um estilo existente […], empreendeu uma busca individual para encontrar ‘o símbolo da coisa na própria coisa’.» The Guardian « Lispector escrevia como se nunca ninguém tivesse escrito antes. Foi um dos génios do século XX, na mesma liga de Flannery O’Brien, Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa. Extraordinariamente original e brilhante, sedutora e inquietante.» Colm Tóibín « Uma escritora verdadeiramente notável.» Jonathan Franzen Ler mais Ler menos